A evolução das lentes intra-oculares

Coube ao Dr. Nicholas Harold Lloyd Ridley, nascido em 10 de julho de 1906 e filho de oftalmologista, implantar a primeira lente intra-ocular (LIO). Na época (1949), seu feito foi renegado pelos demais especialistas, pois acreditava-se que o implante poderia apresentar mais complicações do que benefícios para o paciente.

Em parceria com o óptico e cientista John Pike, o Dr. Ridley decidiu utilizar o polimetilmetacrilato (PMMA) na fabricação da LIO, pois havia observado durante seu trabalho na Segunda Guerra Mundial que muitos pilotos de aviões mantinham pelo corpo estilhaços da cabine da aeronave, que era feita de PMMA, sem que isso representasse um problema para o organismo. E mesmo quando fragmentos desse material atingiam os olhos a reação inflamatória era mínima. Para assegurar a qualidade do material escolhido, Pike solicitou ao seu amigo Dr. John Holt que produzisse um PMMA mais puro do que o comercializado na ocasião.

Assim, em novembro de 1949, no St. Thomas Hospital, o Dr. Ridley realizou o primeiro implante de uma lente artificial em substituição a um cristalino com catarata.

Embora a reabilitação visual dos pacientes operados pelo Dr. Ridley tenha sido satisfatória existiram algumas complicações. Um dos principais problemas da cirurgia era conseguir uma fixação estável para a prótese, evitando seu deslocamento com o passar do tempo. Manter a lente no local exato era uma árdua tarefa que exigia grande domínio do cirurgião, pois naquela época a LIO pesava 45 vezes mais que as próteses de hoje.

Em 1956 o cirurgião Strampelli, projetou uma lente com duas alças para fixação. No ano seguinte, Choyce desenvolveu uma LIO com formato similar a de um prato e três pontos para estabilização. Na mesma época, Binkhorst criou uma lente com quatro alças para fixação na íris.

Muitas modificações ocorreram até que em 1968 o cirurgião russo Fyodorov desenvolveu a lente Sputnik com três alças e três antenas como suporte. No mesmo ano, Copeland desenhou a primeira LIO de peça única.

Na década de 70, Worst projetou a lente Medallion que além de duas alças dispunha de dois orifícios para passar um fio e suturar a lente à íris. Apesar de todos os esforços dos especialistas em desenvolver uma LIO eficaz e que não causasse complicações os problemas continuavam. Até que em 1977, Shearing desenvolveu uma lente com alças em forma de J, permitindo maior estabilidade à prótese.

Em 1979, Sinskey criou uma lente com duas alças em forma de J modificado, também para fixação na câmara posterior. Dois anos mais tarde, Kelman projetou uma LIO com quatro pontos de fixação para a camada anterior, chamada Quadraflex. Em 1982, pequenas alterações neste formato deram origem a lente Multiflex, ainda utilizada até hoje em situações especiais.

Com o problema da descentralização da lente solucionado, outras inovações foram surgindo. No início da década de 80, foram fabricadas as primeiras lentes intra-oculares com proteção contra os raios ultravioleta, que são nocivos a retina.

Dez anos depois, chegou ao mercado a primeira geração de lentes intra-oculares multifocais, buscando solucionar o problema de visão para longe e para perto. Nestes últimos cinco anos uma segunda geração já se encontra disponível para atender esta demanda. Na mesma época, as LIO’s ganharam bordas quadradas fabricadas em acrílico hidrofóbico, inovação que redundou em considerável redução nos índices de opacificação da cápsula posterior. Atualmente uma nova família de LIO’s encontra-se no mercado, indicadas para a correção de aberrações de alta ordem. As LIOs são produzidas com material flexível e dobrável, que permite o implante por incisões de cerca de 3mm.

As mudanças espetaculares ocorridas nestes últimos 30 anos na cirurgia da catarata não devem provocar a sensação de banalização deste delicado procedimento. É imprescindível estar atento a escolha do especialista, pois somente um cirurgião verdadeiramente apto poderá analisar o quadro clinico de cada paciente para então indicar o tipo de lente mais adequado e realizar a cirurgia com extrema perfeição.